sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

de quando parar

Sinto um profundo dessabor em escrever nos últimos tempos. Toda vez que escrevo sinto-me estuprar a mim mesmo, como se espremesse meu âmago tentando dissertar sobre algo que, em realidade, não reverbera em mim.
E como alguém que não sabe parar, eu me violento, me forço - como sempre o fiz - tentando não matar um hábito que se tornou cálido, mas que hoje tornou-se agonia. Escrever, que me era uma dor prazerosa, um modo de cartase, um jogo comigo, transmuta-se em um prazer dolorido - perdoem-me o jogo de palavras. Talvez por isso sinto gosto amargo toda vez que escrevo - e não do tipo bom, mas de dever mal cumprido.
Desta forma, aqui decidido está: não mais escreverei. Pelo menos até que as palavras me rasguem a carne e me obriguem a deixá-las sair.

fantasma

Semeio fantasmas.
O fiz toda a vida.
Nutro sentimentos reais por esses fantasmas de minha vida, não aqueles sentimentos-fantasmas, resto de sentimento que esqueceu-se de morrer, mas antes, sentimentos puros, intactos, por pessoas que sequer existem mais.
Crio esses fantasmas - alguns que sequer chegaram a existir em ato - e preencho minha vida com sentimentos que doem no âmago, por não poderem se realizar em ato. Para sempre sentimentos fantasmas, sentimentos à sombra.
Alguns ex-amores, outros amores-fantasma, ex-amigos ou amizades que nunca acabaram, mas parecem ter desaparecido. Tudo é matéria criadora. Tudo é insumo. Tudo é fantasma. Parece que cada riso ou cada lágrima que cai no chão floresce em fantasmas em minha vida.
Talvez sejam fruto de uma mente fantasiosa como a minha, ou talvez de meu espírito romântico - que vai sendo cada dia mais espremido em minhas costelas por esse cinismo crescente - ou talvez ainda seja o solo sobre o qual me sustento que seja por demais fértil. O que sei é que tudo nasce, cresce, não-morre e permanece sendo sombra.

Se pelo menos eu pudesse usá-las nos dias de Sol, já ajudaria tanto...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

locus

Sou este quarto.
Sou esta lua.
Sou este espaço.
Sou esta grade.
Sou este corpo.
Sou estas palavras.
Sou este coração.

Minhas palavras têm locus.
Não me diferencio dos objetos ao meu redor e ao mesmo tempo diferencio-me em diversos 'eu': o eu-quarto, o eu-lua, o eu-espaço, o eu-grade, o eu-corpo, o eu-palavras, o eu-coração.
Sou pedaços, mas mais que pedaços, sou objetos - não necessariamente físicos - sou tudo o que subjetivo enquanto parte de mim: minhas coisas, meus amigos, meus espaços preferidos, meus conceitos. Nesse jogo de diferenciação não consigo identificar-me em nenhuma parte. O eu-corpo confronta-se com o eu-quarto ou o eu-coração em seus desejos, em existência.
Como se pode viver em partes?