Desde cedo ele quis ser diferente.
Não brincava com as outras crianças, fazia suas próprias coisas.
Aos nove passou a escrever contos.
Aos doze, enquanto todos queriam ser médicos, quis ser antropólogo.
Aos quinze, para fugir da obviedade não bebia, não fumava, não freqüentava festas até o amanhecer.
Passava as tardes lendo, decidiu estudar filosofia.
Aos dezoito, fugiu do clichê: fez farmácia no vestibular.
Aos vinte e dois, fez oficinas de teatro, pintura e escultura.
Aos trinta e cinco decidiu morar com a namorada. Procurando sempre inovar, ele foi para a casa dela.
Aos trinta e sete se separaram.
Com quarenta e três escreveu um livro que não publicou, tornou-se como um diário secreto.
Aos cinqüenta e três suicidou-se no fio de telefone enquanto era falava com a atendente de telemarketing da companhia de televisão a cabo.
Na seu bilhete de suicídio deixou escrito:
"Fugi da obviedade por toda a minha vida.
No fim, escapei do mais terrível e necessário clichê: ser feliz.
Deixo a vida como quem deixa o tédio, afinal, de que valeu toda a minha batalha para morrer como qualquer outro?"
Infelizmente ninguém o leu. Percebendo o quão vulgar era escrever uma nota suicida, atirou-a pela janela, sem perceber que o próprio ato de matar-se era o mais ordinário que se podia tomar.
Sobre Flores...
12 horas atrás

1 aloprados responderam:
Forte e intenso!
Estou a pensar em obviedades e fugas agora...
= *
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