segunda-feira, 28 de maio de 2012

corpos em silêncio

O corpo tem sua própria voz.
Não a voz com que você costuma falar, apesar dessa ser também um voz do corpo, mas uma outra voz que falar com movimentos, com maneirismos e artimanhas.
É difícil entender a fala do corpo, mesmo para aqueles mesmos corpos falantes, mas há pessoas que fazem de sua arte falar com seus corpos. Corpos metaformos, poliglotas que falam as vozes de outrem.
Tenho dificuldade em falar com o corpo, ou pelo menos de fazer meu corpo falar quando quero. Tenho pouco controle mesmo sobre minha voz, mas sobre meu corpo meu controle é quase nulo. Quis o fazer se expressar diversas vezes, mas a voz falha.
Me pergunto que artimanha, que tipo de relacionamento têm esses outros com seus corpos, como o fazem falar tão prolificamente. Quis me tornar ator uma vez, mas mente e corpo se dissociam demais para que consiga falar com ambos de uma só vez.
Sigo meus dias com um corpo rebelde. Um corpo que grita seus maneirismos, suas características e comportamentos, seus gostos e inclinações, mas recusa-se a falar por mim quando o peço. Tenho um corpo que não me informa de seus desejos reais; um corpo que silencia. Um silêncio aterrador.

Não me deixa dormir.

domingo, 27 de maio de 2012

as horas

Acho engraçado como nossas vidas parecem ser definidas em momentos. Vivemos uma vida contínua, uma sucessão temporal sem limites fixos que identificam, em geral, um determinado instante, ou fase da vida. A vida é subjetiva e assim também são os instantes, as fases. Nossa percepção, entretanto, nos leva a crer que nossa vida é feita de momentos discretos, instantes relevantes que definiram quem nós somos.

Lembro claramente quando minha mãe rio ao me ver chorar por me ter feito uma burrice, como quem diz 'que besteira'. Lembro do primeiro beijo, tremendamente inseguro. Lembro de um Sol queimando na pele numa tarde de verão, também...

Quando os instantes se congelam?

Quando esse fluxo, esse sentimento que guia todo um momento se congela e se torna um retrato em nossa memória. Certamente o sentimento de inadequação e frustração não durou os 10 minutos em que eu chorei; o nervosismo, a agitação e a felicidade também ultrapassam os minutos daquele beijo; o Sol queimou minha pele muito mais que aquele instante... mas por que esses sentimentos se fizeram quadros?

Não faz sentido limitar nossa vida a fases tão restritivas, quando tudo é contínuo. Vejo o fantasma que me tornei já naquela criança tímida e sorridente. Vejo também o adolescente romântico em mim hoje. Tudo é fluxo, mas às vezes sinto como se tudo fossem fotos; como se minha vida pudesse ser reduzida a horas.

Me pergunto como seria o polaroide deste instante...

quarta-feira, 16 de maio de 2012

fumaça

''E para sempre a beleza dos homens parece constar de fumaça, não importa com que prazer joguem futebol ou empurrem bolas de críquete ou andem pelas ruas.Possivelmente, em breve perderão tudo isso." WOOLF

decepção

Quis pintar o mundo, mas terminou com uma queimadura na mão

quarta-feira, 18 de abril de 2012

(re)construção

Me desfiz em pedaços, numa tentativa vã de analisar a matéria-prima de mim. Despedacei-me e lancei pedaços pelo espaço.
Hoje cato peças por onde passo, na tentativa - ainda mais infrutífera - de remontar-me. Nesse processo, onde cada buraco vai sendo tapado com reboco, reconstruo quem penso que fui, ou talvez construo um monstro novo, já que há mais buraco e saudade que pedaços para cobri-los.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

de quando parar

Sinto um profundo dessabor em escrever nos últimos tempos. Toda vez que escrevo sinto-me estuprar a mim mesmo, como se espremesse meu âmago tentando dissertar sobre algo que, em realidade, não reverbera em mim.
E como alguém que não sabe parar, eu me violento, me forço - como sempre o fiz - tentando não matar um hábito que se tornou cálido, mas que hoje tornou-se agonia. Escrever, que me era uma dor prazerosa, um modo de cartase, um jogo comigo, transmuta-se em um prazer dolorido - perdoem-me o jogo de palavras. Talvez por isso sinto gosto amargo toda vez que escrevo - e não do tipo bom, mas de dever mal cumprido.
Desta forma, aqui decidido está: não mais escreverei. Pelo menos até que as palavras me rasguem a carne e me obriguem a deixá-las sair.

fantasma

Semeio fantasmas.
O fiz toda a vida.
Nutro sentimentos reais por esses fantasmas de minha vida, não aqueles sentimentos-fantasmas, resto de sentimento que esqueceu-se de morrer, mas antes, sentimentos puros, intactos, por pessoas que sequer existem mais.
Crio esses fantasmas - alguns que sequer chegaram a existir em ato - e preencho minha vida com sentimentos que doem no âmago, por não poderem se realizar em ato. Para sempre sentimentos fantasmas, sentimentos à sombra.
Alguns ex-amores, outros amores-fantasma, ex-amigos ou amizades que nunca acabaram, mas parecem ter desaparecido. Tudo é matéria criadora. Tudo é insumo. Tudo é fantasma. Parece que cada riso ou cada lágrima que cai no chão floresce em fantasmas em minha vida.
Talvez sejam fruto de uma mente fantasiosa como a minha, ou talvez de meu espírito romântico - que vai sendo cada dia mais espremido em minhas costelas por esse cinismo crescente - ou talvez ainda seja o solo sobre o qual me sustento que seja por demais fértil. O que sei é que tudo nasce, cresce, não-morre e permanece sendo sombra.

Se pelo menos eu pudesse usá-las nos dias de Sol, já ajudaria tanto...